terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Solução do problema sobre distorções de curvas

Como prometido, apresentaremos uma prova, devida a Michael Gromov, de que a distorção de uma curva fechada é maior do que ou igual à metade de $\pi$. Para ver uma definição de distorção de curvas fechadas e entender melhor o problema que estamos resolvendo, consulte a postagem anterior (aqui).

Prova. Seja $\gamma$ curva fechada de comprimento 2L. Suponhamos que $\gamma$ está parametrizada pelo comprimento de arco.  Para cada ponto p em $\gamma$, denotemos por p* o único ponto da curva tal que p e p* dividem a curva em dois arcos de comprimento L. Então, para provar a afirmação, e suficiente provar que existe um ponto p em $\gamma$ tal que |p-p*| é menor do que ou igual a 2L/$\pi$. Para tanto, suponhamos o contrario e definamos a curva $\alpha(t)=\gamma(t)-\gamma(t+\mbox{L})$ com $t$ variando entre 0 e L. Vale observar que $\alpha(t)$ é definido como a diferenca entre o ponto $\gamma(t)$ e o seu ponto * correspondente. Facilmente, vemos que $\alpha$ tem comprimento no máximo 2L. Por outro lado, $\alpha$ é uma curva cujos pontos final e inicial são antipodais e, por suposição, $\alpha$ está contida no exterior da bola euclidiana de centro na origem e raio 2L/$\pi$. Por isso, $\alpha$ deve ter comprimento maior do que o de uma semicircunferência de raio 2L/$\pi$, ou seja, $\alpha$ tem comprimento maior do que 2L. O que é o desejado absurdo.
Final da Prova.

Fica como desafio provar que se a distorção de $\gamma$ vale a metade de $\pi$, então $\gamma$ deve ser um circulo.

Até a próxima. 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Um problema sobre distorções de curvas

Seja $\gamma$ uma curva simples e fechada em $\mathbb{R}^n$ de comprimento finito L. Dados quaisquer dois pontos distintos $p$ e $q$ sobre $\gamma$, existem exatamente dois arcos sobre a curva que conectam $p$ e $q$ e, pelo menos um deles tem comprimento $D_{\gamma}(p,q)$ menor do que ou igual à metade de L. Definimos a distância em $\gamma$ entre p e q como sendo $D_{\gamma}(p,q)$. De fato, a função $D_{\gamma}$, assim definida, é uma distância sobre a curva $\gamma$. Pois bem,  agora definimos a distorção de $\gamma$ como o supremo dos quocientes $\frac{D_{\gamma}(p,q)}{|p-q|}$ quando $p\neq q$ variam em $\gamma$.

Eis o nosso problema de hoje!

Problema. A distorção de $\gamma$ é sempre maior do que ou igual à metade de $\pi$ e, ocorre a igualdade se, e somente se, $\gamma$ é um círculo.

Na próxima postagem, trarei uma belíssima solução para este problema. 





quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Renan, Medalha de Ouro

Renan da Silva Santos, aquele camarada do blog ponto de acumulação, aluno do Bacharelado em Matemática da UFC, conquistou a medalha de ouro no VI SIMPÓSIO NACIONAL / JORNADAS DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA que aconteceu no IMPA, Rio de Janeiro, de 04 a 10 de novembro de 2012. O Renan, sob a minha orientação, apresentou uma monografia sobre endomorfismos injetivos de variedades algébricas. O resultado mais conhecido a respeito do tópico acima é o Teorema de Ax-Grothendick o qual diz que, no caso em que temos variedades algébricas sobre corpos algebricamente fechados, tais endomorfismos são necessariamente sobrejetivos. Além de trazer uma prova do Teorema de Ax-Grothendick, a monografia do Renan aborda resultados do tipo Ax-Grothendick quando consideradas variedades algébricas sobre corpos não necessariamente algebricamente fechados, vale a pena conferir.

Parabéns, Renan!

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Complementar de conjuntos algébricos em $\mathbb{R}^n$

"Seja $V\subset\mathbb{R}^n$ um subconjunto algébrico não vazio. Então, $\mathbb{R}^n$ e $\mathbb{R}^n-V$ não são homeomorfos"

Abaixo, segue uma prova do resultado acima

Por Rodrigo Mendes Pereira

Primeiramente, meus agradecimentos ao professor Alexandre pelo convite! 

A prova que vou apresentar aqui usa uma versão semialgébrica da Homologia de Borel-Moore. Ressalto que o interesse em trabalhar com uma teoria de homologia dentro da estrutura semialgébrica é, dentre outros fatores, por ter a disposição boas ferramentas (como decomposição celular, descrição por fórmulas e existência de uma boa triangulação). De posse disto, é garantida a existência de uma classe fundamental sobre variedades algébricas que é essencial, em particular, para esta prova. Vamos lá então!

Gostaria de iniciar uma sequência observações sobre conjuntos semialgébricos apresentando o conceito de dimensão de conjuntos semialgébricos. Temos um teorema de decomposição de conjuntos semialgébricos que garante o seguinte: cada $X$ semialgébrico pode ser escrito como união finita e disjunta (a menos de um homeomorfismo semialgébrico) de cubos unitários abertos $(0,1)^{d_i}, \  d_i \in \mathbb{N} \cup \left\{0\right\}, i = 1,2 \ldots, k$. Com isto temos uma definição natural para dimensão de $X$, a saber, $dim X = max\left\{d_1, \ldots, d_k \right\}$ 

Antes de iniciarmos a prova propriamente dita,  vamos definir e fixar mais alguns fatos importantes referentes à teoria de homologia semialgébrica.

  •  Sobre triangulação
Se $X$ é um semialgébrico compacto em $\mathbb{R}^n$, então existem $|\mathcal{K}| \subset \mathbb{R}^n$ complexo simplicial finito e um homemorfismo  $\varphi: |\mathcal{K}| \rightarrow X$ tal que o gráfico de $\varphi$ é um conjunto semialgébrico em $\mathbb{R}^{2n}$ (definição de um aplicação semialgébrica) e tal triangulação pode ser escolhida compatível com uma família $X_1, X_2, \ldots, X_n$ de conjuntos semialgébricos em $X$. Isto significa que $\varphi^{-1}\left(X_i\right) = L_i$ subcomplexo de $\mathcal{K}$. Por outro lado, se X é ilimitado ou não contém todos os seus pontos de fronteira podemos obter uma versão semialgébrica da compactificação de Alexandrov:
 Existem, para X localmente compacto, um subconjunto semialgébrico $X^* \subset \mathbb{R}^{n+1}$ compacto, um mergulho  semialgébrico de $X$ em $X^*$ de forma que  $X^*-X = \left\{p\right\} \in \mathbb{R}^{n+1}$.

Portanto, de posse de uma triangulação de $X$ (localmente compacto) podemos definir a 

  • Homologia semialgébrica de Borel-Moore
      $H_i^{BM}(X,\mathbb{Z}_2 )$, se $X$ for compacto, é definido por  $H_i(X, \mathbb{Z}_2)$ e, se $X$ não for compacto, é definido por $H_i(X^*,X^*-X, \mathbb{Z}_2)$.

$i = 0,1, \ldots, dimX$.

Um comentário: $H_i(X, \mathbb{Z}_2)$ trata-se de um grupo de homologia simplicial (e um espaço vetorial!), induzido pelo quociente entre ciclos e bordos sobre complexo de cadeias $\mathcal{C}_i(X,\mathbb{Z}_2)$, que não depende da triangulação, ou seja, é invariante topológico. Por conseguinte, também independem da triangulação, grupos de homologia relativa induzidos pelo quociente natural entre os respectivos complexos de cadeias (considerando uma escolha compatível de triangulação).

Vamos agora a 3 resultados que serão usados na demonstração (todos os grupos de homologia considerados são com coeficientes em $\mathbb{Z}_2$):

1. Sejam $A \subset B$ semialgébricos compactos em $\mathbb{R}^n$. Temos que
 $H_q(A,B) = H_q^{BM}(A - B)$.


2. Sejam $U \subset V$, $V$ localmente compacto e $U$ subconjunto semialgébrico fechado de $V$. Então existe uma sequência exata longa

      $\ldots H_{q+1}^{BM} (V - U) \rightarrow H_q^{BM}(U) \rightarrow H_q^{BM}(V) \rightarrow H_{q}^{BM}(V - U) \rightarrow \ldots $
   

3. (Existência da classe fundamental) Seja $X$ um conjunto algébrico compacto de dimensão $d$ e considere $\phi:|\mathcal{K}| \rightarrow X$ uma triangulação semialgébrica de $X$. A soma de todos os $d$-simplexos de $\mathcal{K}$ é um ciclo não nulo com coeficientes em $\mathbb{Z}_2$, elemento de $H_d(X,\mathbb{Z}_2)$. Este elemento (que denotaremos por $[X]$) é independente da escolha da triangulação e é dito a classe fundamental de $X$.

 Vamos  agora à prova do teorema: Ah! Nessa altura, vale lembrar o que se deseja provar:

Teorema principal.
O complemento de um subconjunto algébrico de $\mathbb{R}^n$ não é homeomorfo a $\mathbb{R}^n$.

Prova:

Para nossos propósitos vamos tomar grupos de homologia reduzida $\tilde{H}$:

$H_0(|\mathcal{K}|) = \mathbb{Z}\oplus \tilde{H}_0(|\mathcal{K}|)$ e $\tilde{H}_i(|\mathcal{K}|) = H_i(|\mathcal{K}|)$ se $i > 0$.

Considere $V$ algébrico com $dimV < n$ e a seguinte sequência exata:

$\ldots \rightarrow H_i^{BM}(V) \rightarrow H_i^{BM}(\mathbb{R}^n) \rightarrow H_{i}^{BM}(\mathbb{R}^n - V) \rightarrow H_{i-1}^{BM}(V) \ldots $


Sabemos que $H_n^{BM}(\mathbb{R}^n) = \mathbb{Z}_2$ e $H_i^{BM}(\mathbb{R}^n)=0$ para $i < n$. Além disso,

$H_{dimV}^{BM}(V)$ é não trivial e $H_i^{BM}(V) = 0, \ i > dimV$.

Pela exatidão da sequência acima, obtemos ($0 < i < n$)

 $0 \rightarrow H_i^{BM}(\mathbb{R}^n-V) \rightarrow H_{i-1}^{BM}(V) \rightarrow 0$

E, portanto, $H_i^{BM}(\mathbb{R}^n - V) = H_{i-1}^{BM}(V)$, \   $0< i < n$     (I)

Para $i = n$, ficamos com o seguinte:

 $0 \rightarrow \mathbb{Z}_2 \rightarrow H_n^{BM}(\mathbb{R}^n-V) \rightarrow H_{n-1}^{BM}(V) \rightarrow 0$

Como os elementos dessa sequência podem ser vistos como módulos sobre um corpo (espaços vetoriais) temos que: $H_n^{BM}(\mathbb{R}^n-V) = \mathbb{Z}_2 \oplus H_{n-1}^{BM}(V)$ (II).


Nesse ponto, olhando para a equação (II), se fossem $\mathbb{R}^n$ e $\mathbb{R}^n-V$ homeomorfos, não poderia ser $dim V = n-1$ pois

 $ \mathbb{Z}_2 = H_n^{BM}(\mathbb{R}^n) = \mathbb{Z}_2 \oplus H_{n-1}^{BM}(V)$

E nem poderia ser  $0\leq p = dimV < n-1$ pois usando a equação (I) teríamos

$0 = H_{p+1}^{BM}(\mathbb{R}^n) = H_{p}^{BM}(V)$

Logo, $V$ deve ser $\emptyset$ e isto conclui a prova.

sábado, 1 de setembro de 2012

Complementar de curvas algébricas em $\mathbb{R}^2$ II

A postagem de hoje é destinada a apresentação de uma solução para o seguinte problema.


Problema. O complemento de um subconjunto algébrico de $\mathbb{R}^2$ não é homeomorfo a $\mathbb{R}^2$.

Solução. Seja p(x,y) um polinômio irredutível que não muda de sinal em $\mathbb{R}^2$. Mostraremos que o conjuntos dos zeros deste polinômio é finito. De fato, dado (a,b) ponto que anula aquele polinômio, temos que, para qualquer que seja o vetor (u,v), a função real de uma variável real $t$ dada por

f(t)=p(a+tu,b+tv)

possui um ponto de mínimo em t=0, portanto, f'(0)=0, ou seja, o gradiente de  p(x,y) no ponto (a,b)  é ortogonal ao vetor (u,v). Desde que escolhemos o vetor (u,v) arbitrariamente, constatamos que o gradiente de p(x,y) se anula no ponto  (a,b).  Segue do Teorema de Bezout que  o conjunto dos zeros de p(x,y) é finito.

Suponhamos que X seja definido por um polinômio p(x,y). Isto é, X é o conjunto dos pontos (x,y) em que p(x,y)=0. Se os fatores irredutíveis de p(x,y) não mudam de sinal em $\mathbb{R}^2$ temos que X é um conjunto finito (foi o que vimos acima). Assim, o complemento de X  não é simplesmente conexo.

Então, resta-nos supor que p(x,y) possui um fator irredutível q(x,y) que muda de sinal em $\mathbb{R}^2$. Desta forma, os conjuntos abaixo
  • pontos (x,y) em que q(x,y) é positivo
  • pontos (x,y) em que q(x,y) é negativo
são abertos, disjuntos e não-vazios. Como o complemento de X é um subconjunto denso do plano que está contido na reunião dos conjuntos acima, temos que ele não é conexo.

C.Q.D.

Antes de finalizar esta postagem, gostaria de informar que o problema acima possui uma versão em dimensão n, quero dizer, temos o seguinte resultado em $\mathbb{R}^n$.

Teorema. O complemento de um subconjunto algébrico de $\mathbb{R}^n$ não é homeomorfo a $\mathbb{R}^n$.

Recentemente, meu aluno de mestrado, Rodrigo Mendes Pereira, escreveu sua dissertação sobre Homologia Semialgébrica sobre corpos reais fechados e provou uma versão do teorema acima para $\mathbb{K}^n$, em que $\mathbb{K}$ é um corpo real fechado. Por isto, convidei o Rodrigo a escrever uma postagem para este blog  trazendo uma demonstração para o teorema acima. Já estamos esperando, Rodrigo!

sábado, 11 de agosto de 2012

Complementar de curvas algébricas em $\mathbb{R}^2$


Eu e Renan (meu aluno de iniciação científica), recentemente, quando estudávamos o Teorema de Newman (ver abaixo), deparamo-nos com o seguinte problema: se removermos um subconjunto algébrico, próprio, do plano euclidiano o resultado não será homeomorfo ao plano.

Antes de tecer mais alguns comentários sobre o problema acima, gostaria de enunciar o Teorema de Newman

Teorema (Donald J. Newman 1969). Se uma aplicação polinomial $\mathbb{R}^2\rightarrow\mathbb{R}^2$ é injetiva, então ela também é sobrejetiva.

O teorema acima é parte de uma belíssima história na matemática que tem como palavra-chave “Teorema de Ax-Grothendick”. Se você quiser conhecer um pouco dessa história, sugiro o post publicado por Terence Tao em seu blog  What’s new (aqui).

De volta ao primeiro problema descrito acima, gostaria de observar que existe subconjunto semi-algébrico, próprio, do plano euclidiano de sorte que seu complementar continua homeomorfo ao plano. Com efeito, o complementar de uma semi-reta no plano é homeomorfo ao plano. Ora, se não fosse assim, o Teorema de Newman seria consequência imediata desse fato.  Infelizmente, a vida não é tão fácil! Ou não, como diria o Renan.

Então, finalizo esta postagem prometendo trazer uma solução bonita para o seguinte

Problema: Se $X\subset\mathbb{R}^2$ é subconjunto algébrico, próprio, então $\mathbb{R}^2\setminus X$ não é homeomorfo a $\mathbb{R}^2$.


domingo, 15 de julho de 2012

Triângulo Russo


Hoje encontrei um amigo que há muito tempo não via, Professor Ivair. Realmente, foi uma grande satisfação encontrá-lo novamente. Vocês podem estar perguntando por que eu relataria aqui um reencontro com um amigo. Já explico o porquê de um reencontro com  o Professor Ivair gerar uma postagem no Happy Hour Matemático. O negócio é o seguinte: ele conhece muitos e bons problemas de matemática, coleciona-os em apostilas e tem dezenas delas. Ele é, de fato, uma boa fonte para este blog. 

Não há como eu me encontrar com ele e não lembrar de um problema casca grossa. Confesso que hoje não foi diferente! Lembrei-me de um famoso problema de geometria plana conhecido como o Triângulo Russo, o qual, também, foi-me apresentado pelo Ivair em uma de nossas conversas na UFC. 

Abaixo segue o Problema do Triângulo Russo.

Sabendo que AB=AC, encontre o valor do ângulo x.




Até a próxima!