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terça-feira, 21 de maio de 2013

A reta não possui raiz (topológica). Solucão.

Na postagem anterior, propusemos o seguinte problema.

Não existe um espaço topológico $X$ tal que $\mathbb{R}$ seja homeomorfo a $X\times X$.

Abaixo, segue a solução apresentada pelo leitor Rodrigo Mendes. Eu tinha prometido postar a minha solução, mas mudei de ideia!

Solução

Se um tal espaço $X$ existe, então $X$ deve ser de Hausdorff e conexo. Mais ainda, desde que $X$ é  homeomorfo ao subconjunto diagonal de $X\times X$,  o qual é  um fechado de $X\times X$, devemos ter $X$ homeomorfo a um intervalo fechado de $\mathbb{R}$. Absurdo pois $\mathbb{R}$ não é  homeomorfo a um produto de dois intervalos.

                                                                   Final da Solução

Antes de finalizar esta postagem, gostaria de agradecer a todos que comentaram na postagem anterior e observar que aquela discussão sobre raizes de grupos foi bem interessante. Em primeira mão anuncio que Rafael e Bill prometeram postagens sobre esse assunto; já estamos esperando! 






sexta-feira, 3 de maio de 2013

A reta não possui raiz

Iniciei meu final de semana lendo o artigo intitulado "$\mathbb{R}^3$ has no root" escrito por Robbert Fokkink e publicado em 2002 no periódico American Math. Monthly. Fokkink mostra que não existe um espaço topológico $X$ tal que $\mathbb{R}^3$ seja homeomorfo a $X\times X$, isto é exatamente o que Fokkink entende por $\mathbb{R}^ 3$ não possuir uma raiz. Como Fokkink observa no artigo, é possível mostrar que $\mathbb{R}^3$ não possui raiz utilizando a fórmula de Kunneth para grupos de homologia local de espaços euclidianos, contudo a ideia de Fokkink é trazer uma prova elementar daquele fato. A prova de Fokkink é elementar e se baseia somente na seguinte observação


- Se $h\colon\mathbb{R}^ n\rightarrow\mathbb{R}^ n$ é um homeomorfismo, então $h^ 2=h\circ h$ é um homeomorfismo que preserva orientação.

Resolvi fazer uma pergunta mais básica; 

- $\mathbb{R}$ possui raiz ?

Utilizando somente Topologia Geral, cheguei a uma resposta negativa da pergunta acima. Então, fica prometido que na próxima postagem trarei a minha demonstração de que $\mathbb{R}$ não possui raiz.

Bom final de semana!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Pontos de acumulação e aplicação de um teorema bacana

Como havíamos prometido, esta postagem é destinada a uma solução do problema abaixo, o qual  foi proposto na postagem anterior.


Problema A. Não é possível escrever o plano real como reunião de quadrados fechados dois a dois disjuntos.


Para esse fim, recorremos a um teorema bacana relacionado ao conceito de ponto de acumulação.


Antes de apresentarmos o conceito de ponto de acumulação, para evitar qualquer sentimento paranoico do tipo que  compele o indivíduo a associar qualquer conceito matemático ao cotidiano, deixamos claro que, aqui, pontos de acumulação não têm relação com programas de cartões de crédito, milhagens de companhias aéreas   ou ainda com o bem-humorado blog do Renan. De toda sorte, no parágrafo seguinte, apresentamos a definição de  ponto de acumulação de um subconjunto da reta real.


Dizemos que um número real r é um ponto de acumulação de um subconjunto X da reta real se qualquer intervalo aberto contendo r contém, necessariamente, um elemento do subconjunto X o qual é diferente de r.


Denotamos por X' o subconjunto da reta real formado pelos pontos de acumulação de X.


Teorema Bacana. Seja X um subconjunto não-vazio da reta real. Se X=X', então X não é enumerável. 


Pode-se encontrar uma prova do teorema acima no livro "Curso de Análise Vol. 1" (Projeto Euclides, IMPA) do Professor Elon Lages Lima.


Como aplicação do Teorema Bacana, vejamos a versão 1-dimensional do problema proposto no início da postagem. A versão abaixo foi proposta por Rafael na seção de comentários da postagem anterior.


Versão 1-dimensional do Problema A. Não é possível escrever a reta real como reunião de intervalos fechados dois a dois disjuntos. 


Prova da versão 1-dimensional do Problema A. De fato, por contradição, suponhamos que exista uma cobertura da reta real por intervalos fechados dois a dois disjuntos. Denotemos por F essa família de intervalos e por X o subconjunto da reta formado pelos extremos dos intervalos da família F. Considere a função que a cada intervalo dessa família associa um  racional no interior desse intervalo. Desde que os intervalos dessa cobertura são dois a dois disjuntos, temos que essa função é injetiva. Portanto, a família F é enumerável e, em particular, o conjunto X também o é. Por outro lado, é fácil ver que X=X'. Agora, pelo Teorema Bacana, temos uma contradição.


Solução do Problema A. Por contradição, suponhamos que exista uma cobertura do plano real por quadrados fechados dois a dois disjuntos. Denotemos por Q essa família de quadrados. Considere a função que a cada quadrado dessa família associa um ponto  no interior desse quadrado  que tem coordenadas racionais . Desde que os quadrados dessa cobertura são dois a dois disjuntos, temos que essa função é injetiva. Portanto, a família Q é enumerável. Em particular, o conjunto formado pelos vértices dos quadrados da família Q é enumerável. Assim, temos uma R reta no plano real que não intersecta esse conjunto de vértices descrito acima.  Agora, pela construção da reta R, a interseção de R com cada quadrado da família Q ou bem é vazia ou é um intervalo fechado da reta R. Daí, temos que a reta R é coberta por uma reunião enumerável de intervalos fechados dois a dois disjuntos. O que contradiz a versão 1-dimensional do Problema A.
C.Q.D.


Para finalizar esta postagem,  gostaria de dizer que quem tiver interessado em conhecer a prova do Teorema Bacana, e não tiver acesso a uma referência, é só me enviar um mensagem que posso retorná-la com uma cópia da prova apresentada no livro Curso de Análise Vol. 1. É isso!


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Curvas de Jordan no Toro II

Como prometido, nesta postagem apresentamos uma solução do seguinte problema. 


Problema. Encontrar um algoritmo tal que ao traçar uma curva de Jordan sobre a superfície do toro seja possível decidir se a curva demarca dois territórios sobre o toro.


A solução abaixo exige um pouco de familiaridade com topologia.


Solução.  Fixamos um paralelo f (em verde na figura abaixo) e um meridiano g (em azul na figura abaixo) com orientações definidas na figura.




Seja J uma curva de Jordan no toro com sentido de percurso definido.


Para cada ponto P no cruzamento da curva de Jordan J (em vermelho abaixo) com o paralelo f , definimos um número i(J,f,P) da seguinte forma:


i(J,f,P)=1 se o cruzamento ocorrer da seguinte forma

i(J, f, P) = -1 se o cruzamento ocorrer da seguinte forma

Consideramos o número inteiro m(f,J) definido como a soma de todos os números i(J,f,P) variando P nos pontos de cruzamento de J com f.


Analogamente, para cada ponto Q no cruzamento da curva de Jordan J com o meridiano g definimos o número  i(J,g,Q) e, também, definimos o número inteiro m(g,J) como a soma de todos os números i(J,g,Q) variando Q nos pontos de cruzamento de J com g.


Finalmente, temos que J divide o toro em dois territórios se, e somente se, os números inteiros m(f,J) e m(g,J) são iguais a zero.

Final da solução.




A partir daqui, mostramos porque o algoritmo acima funciona! A solução que apresentamos acima está fundamentada nos seguintes resultados.


Primeiro Resultado. Uma curva de Jordan demarca dois territórios no toro se, e somente se, ela pode ser continuamente deformada em um ponto sobre o toro.

Esse primeiro resultado não é trivial. No final da postagem segue uma ideia de sua prova.

Segundo Resultado. O grupo fundamental do toro é isomorfo ao grupo abeliano livre gerado por dois elementos.

De fato, do Segundo Resultado precisamos utilizar algo da construção do isomorfismo entre o grupo fundamental do toro, doravante denominado grupo G, e o grupo abeliano livre com dois geradores. Os meridianos e os paralelos definem os dois geradores do grupo G e os caminhos que podem ser deformados em J, vistos como elementos do grupo G, se escrevem de forma única como


m(f,J) f + m(g,J) g  

Desde que as curvas que podem ser deformadas em um ponto definem o elemento neutro do grupo G, concluímos que a curva de Jordan J pode ser deformada em um ponto se, e somente se, m(f, J) e m(g, J) são iguais a zero e, recorrendo ao Primeiro Resultado, concluímos que a curva de Jordan J demarca dois territórios sobre o toro se, e somente se, m(f, J) e m(g, J) são iguais a zero.


Para finalizar a postagem, apresentamos abaixo uma ideia da prova do Primeiro Resultado.  


Seja J uma curva de Jordan no toro.


Afirmação 1. 
 J se deforma em um ponto se, e só se, J é fronteira de um disco no toro

No caso em que J se deforma em um ponto, de acordo com o Teorema de Monodromia, o seu levantamento para o recobrimento universal do toro (no caso o plano) é uma curva de Jordan também e, pelo Teorema Clássico da Curva de Jordan, tal levantamento divide o plano em dois territórios e um desses territórios D é um disco topológico que tem o levantamento de J como fronteira. Com um pouco de esforço, mostra-se que a restrição do recobrimento a D é um homeomorfismo sobre a sua imagem e, portanto, J é fronteira de um disco topológico no toro. A recíproca é clara.

Afirmação 2. 
J é fronteira de um disco, se e só se, J demarca territórios no toro.

Suponhamos que J divide o toro em dois territórios A e B. Sejam A' a reunião de A com J e  B' a reunião de B com J. Abaixo temos figuras que dão uma ideia do que sejam A' e B'. 

Se, após o corte do toro ao longo da curva J, obtemos as figuras como as que estão imediatamente acima, temos que J é fronteira do disco topológico B. Demonstremos agora que devemos ter exatamente as figuras acima, após o corte do toro ao longo da curva J. De fato, se colamos um disco a A' (respectivamente B') colando a fronteira do disco à curva J obtemos duas superfícies fechadas no espaço cuja soma conexa é exatamente o toro. Pela classificação das superfícies fechadas, temos que umas delas é um toro e a outra é uma esfera, pois essa é a única possibilidade de se obter um toro como soma conexa de duas superfícies fechadas. Sem perda de generalidade, podemos supor que a esfera foi obtida de B' por colagem de um disco ao longo de J. Portanto, B' é exatamente como na figura acima.

A recíproca não oferece resistência.

sábado, 15 de outubro de 2011

Curvas de Jordan no Toro


Nosso amigo stick, apresentado na postagem anterior,  aprendeu em seu livro de topologia o que são curvas simples e fechadas (ou simplesmente curvas de Jordan)




Além disso, ele aprendeu que uma vez traçada uma curva de Jordan C sobre a esfera, os pontos da esfera que não estão na curva C podem ser agrupados em duas regiões que satisfazem a seguinte propriedade: os pontos de uma dessas regiões não podem ser ligados a pontos da outra região sem cruzar a curva C. Mais ainda, pontos de uma mesma região podem ser ligados por caminhos contidos na região.



Esse resultado, conhecido como o Teorema da Curva de Jordan, já foi contado e recontado em livros, artigos, blogs, dissertações, vídeos, de modo que é fácil encontrar boas referências sobre o assunto.   Segue um enunciado simplificado do Teorema de Jordan.



"Curvas de Jordan dividem a esfera em dois territórios "



Na figura acima, temos uma curva de Jordan em vermelho e as regiões que compõem o complementar da curva na esfera estão em azul e bege. 

Aplicação do conhecimento adquirido: sempre que o stick deseja se livrar do seu fiel companheiro, porém muito chato, cão stick, ele demarca duas regiões traçando uma curva de Jordan no solo e sobre a curva levanta uma cerca suficientemente alta.





Convidamos o stick, juntamente com o seu pegajoso cão stick, a visitar um planeta imaginário cuja superfície tem a forma de uma bóia salva-vidas  ou um biscoito do tipo rosquinha (donuts) ou ainda uma câmara de ar de pneu. Já chega, acho que vocês já me entenderam! De toda forma, vejam a figura abaixo.



Agora, sobre a superfície do estranho planeta imaginário, doravante chamado de planeta toro, sugerimos ao stick que utilize seus conhecimentos de topologia para isolar o insuportável cão.


Pouco tempo depois de o stick isolar o desagradável cão, como mágica, o enfadonho se junta ao seu dono, demonstrando assim que a intuição adquirida pelo stick não funciona no planeta toro. 



Isso mesmo, na sua primeira tentativa de traçar sobre o planeta toro uma curva Jordan e sobre essa curva levantar uma cerca suficientemente alta para isolar o cínico cão, o stick descobriu que existem curvas de Jordan no planeta toro cujos pontos de seu  complementar sempre podem ser conectados por um caminho que não cruza a curva de Jordan. 

Veja abaixo a trajetória (em azul) percorrida pelo cão para se juntar ao seu dono sem cruzar a cerca levantada sobre a curva de Jordan (em vermelho)



Problema. Descrever um algoritmo tal que sempre que o stick traçar uma curva de Jordan sobre a superfície do planeta toro ele possa decidir se a tal curva divide o toro em dois territórios.



Na próxima postagem, espero apresentar uma solução razoável para o problema acima. Enquanto isso, convido vocês a uma discussão sobre a solução desse problema. A área de comentários está de portas abertas!