sábado, 29 de agosto de 2020

O que é ... multiplicidade de pontos singulares?

Nesta nota, em linhas gerais, além de apresentar o conceito de multiplicidade de pontos singulares, trazemos, em perspectiva, a famosa Conjectura da Multiplicidade de Zariski e o contexto em que nossas principais contribuições sobre o assunto foram desenvolvidas e nossas parcerias científicas nesse projeto. Este texto foi escrito para fornecer um embasamento para algumas de minhas palestras sobre multiplicidade de pontos singulares.

Estrutura Analítica Local

Estamos no contexto de subconjuntos analíticos fechados $X\subset\mathbb{C}^n$. Dizemos que $X\subset\mathbb{C}^n$ possui a mesma estrutura analítica em $p\in X$ que $Y\subset\mathbb{C}^m$ em $q\in Y$ se existem vizinhanças $U\subset\mathbb{C}^n$ de $p$, $V\subset\mathbb{C}^m$ de $q$ e uma aplicação analítica $F\colon X\cap U\rightarrow Y\cap V$ com inversa $G\colon Y\cap V\rightarrow X\cap U$ também analítica. A definição acima define uma classe de equivalência no conjunto dos pares $(X,p)$. Uma classe de equivalência da relação acima é o que chamamos de uma estrutura analítica local. A linha de pesquisa intitulada Geometria Analítica Local tem como principal objetivo descrever e reconhecer todas as estruturas analíticas locais. Estabelecemos a classe de $(\mathbb{C}^n,0)$ como a estrutural analítica local mais simples e a denominamos por estrutura analítica local trivial.

Denotamos por $\mathcal{O}_{X,p}$ o conjunto das funções analíticas complexas definidas numa vizinhança do ponto $p$ sobre $X$ equipado naturalmente com as operações  de adição e multiplicação provenientes do espaço das funções com valores em $\mathbb{C}$. Verifica-se que $\mathcal{O}_{X,p}$ é um anel local com ideal maximal $\mathcal{M}_{X,p}$ constituído das funções que aplicam $p$ no valor $0\in\mathbb{C}$.


Teorema Os pares $(X,p)$ e $(Y,q)$ definem as mesmas estruturas analíticas locais se, e somente se, $\mathcal{O}_{X,p}$ e $\mathcal{O}_{Y,q}$ são isomorfos como $\mathbb{C}$-álgebras locais.


Vale observar que o teorema acima oferece uma alternativa de estudo da Geometria Analítica Local via uma abordagem completamente algébrica. 

Multiplicidade

A seguir, apresentamos o conceito de multiplicidade o qual aparece naturalmente como uma medida de não-trivialidade de estruturas analíticas locais.


Proposição (Definição) Seja $X\subset\mathbb{C}^n$ tal que sua dimensão numa vizinhança do ponto $p\in X$ é $d$. Se $L\colon\mathbb{C}^n\rightarrow\mathbb{C}^d$ é uma projeção linear genérica, então a sua restrição a $X\cap U$ define uma aplicação finita de grau $m$ para toda vizinhança suficientemente pequena $U\subset\mathbb{C}^n$ do ponto $p$. Além disso, o número inteiro $m$ não depende da projeção genérica escolhida. O número inteiro $m$ é chamado de a multiplicidade de $X$ em $p$ e é denotado por $\mu(X,p)$.


Como mencionado acima, no sentido que precisaremos abaixo, a multiplicidade $\mu(X,p)$ mede a não-trivialidade da estrutura analítica local do par $(X,p)$ quando $X$ tem dimensão pura numa vizinhança do ponto $p$, a saber: o par $(X,p)$ define uma estrutura analítica local trivial se, e somente se, $\mu(X,p)=1$.


Exemplo (Cúspide) $X=\{(x,y) \ : \ x^2=y^3\}$ em $\mathbb{C}^2$. Temos que a projeção ortogonal no eixo-$x$ \'e uma projeção linear genérica para $X$ no ponto $0\in X$ (pois não contém em seu núcleo vetores tangentes a $X$ no ponto $0$). Segue-se que $\mu(X,0)=2$.


Do ponto de vista algébrico, a multiplicidade de $X$ no ponto $p$ é introduzida via o Polinômio de Hilbert-Samuel do anel local $\mathcal{O}_{X,p}$ o qual apresentamos na proposição a seguir.  


Proposição (Definição)  Seja $X\subset\mathbb{C}^n$ tal que sua dimensão numa vizinhança do ponto $p\in X$ é $d$. Então, existe um polinômio $P_{X,p}$ de grau $d$ tal que $P_{X,p}(k)$ coincide com a dimensão do $\mathbb{C}$-espaço vetorial $\displaystyle\frac{\mathcal{O}_{X,p}}{\mathcal{M}_{X,p}^k}$ para todo inteiro $k$ suficientemente grande. Além disso, $d!$ multiplicado pelo coeficiente líder do polinômio $P_{X,p}$ é um número inteiro, o qual chamamos de multiplicidade de Hilbert-Samuel de $X$ em $p$.


De volta ao Exemplo da Cúspide acima, verifica-se que o polinômio de Hilbert-Samuel de $X,0$ é $P_{X,0}(t)=2t-1$, donde segue que a multiplicidade de Hilbert-Samuel de $X$ no ponto $0$ vale 2, isto é, coincide com $\mu(X,0)$. 

De uma forma geral, como resultado não trivial da Geometria Analítica Local, a multiplicidade $\mu(X.p)$ coincide com a multiplicidade de Hilbert-Samuel de $X$ no ponto $p$. Assim sendo, recorrendo ao teorema, enunciado alguns parágrafos acima, o qual possibilita o estudo da Geometria Analítica Local via uma abordagem totalmente algébrica, recebemos que $\mu(X,p)$ é um invariante da estrutura analítica local de $(X,p)$ no seguinte sentido: se os pares $(X,p)$ e $(Y,q)$ definem a mesma estrutura analítica local, então $\mu(X,p)=\mu(Y,q)$.


Existência de moduli

Embora a multiplicidade seja bastante para identificar as estruturas analíticas locais triviais, o exemplo a seguir nos mostra que invariantes discretos não são bastante para descrever todas as estruturas analíticas locais. 


Exemplo (4 retas)  Seja $X_{t} \ : \ xy(x-y)(x-ty)=0$ em $\mathbb{C}^2$. Tem-se que para $t\neq s$ genéricos, os pares $(X_{t},0)$ e $(X_s,0)$ não possuem a mesma estrutura analítica local.

4 retas pela origem


Em outras palavras, o exemplo acima demonstra que existe uma quantidade não enumerável de estruturas analíticas locais. Os exemplos do tipo acima foram obtidos em meados da década de 60. Especificamente, o Exemplo das 4 retas é devido a H. Whitney (1965).


Topologia e Geometria Local

Ainda na década de 60, resultados que apontaram para a possibilidade de descrever a topologia local de conjuntos analíticos somente com invariantes discretos muito impulsionaram a pesquisa no tema e atraíram eminentes matemáticos para questões ainda hoje em aberto.

Nos parágrafos seguintes, definiremos o conceito de topologia local de conjuntos analíticos empregado no parágrafo acima e explicaremos com precisão as afirmações lá enunciadas. 

Conjectura da Multiplicidade de Zariski

Sejam $X$ e $Y$ subconjuntos analíticos fechados de um mesmo ambiente $\mathbb{C}^n$, e sejam $p\in X$, $q\in Y$. Dizemos que os pares $(X,p)$ e $(Y,q)$ são topologicamente equivalentes ou que possuem a mesma topologia local mergulhada em $\mathbb{C}^n$ se existem vizinhanças $U\subset\mathbb{C}^n$ de $p$ e $V\subset\mathbb{C}^n$ de $q$, e um homeomorfismo $F\colon U\rightarrow V$ tal que $F(X\cap U)=Y\cap V$ e $F(p)=q$.

Na década de 60, foi provado que existe uma quantidade enumerável de topologias locais mergulhadas de conjuntos analíticos; não sei a referência exata da primeira prova deste resultado, de todo modo, S. Lojasiewicz é uma boa referência para o tema.

Era conhecido por O. Zariski que a multiplicidade era um invariante da topologia local mergulhada de curvas analíticas no plano complexo, de modo que, em 1971, O. Zariski formulou a seguinte pergunta: se os pares $(X,p)$ e $(Y,q)$ de hipersuperfícies em $\mathbb{C}^n$ possuem a mesma topologia local mergulhada, então $\mu(X,p)=\mu(Y,q)$? 

Estrutura Lipschitz Local

Dizemos que $X\subset\mathbb{C}^n$ possui a mesma estrutura Lipschitz em $p\in X$ que $Y\subset\mathbb{C}^m$ em $q\in Y$ se existem vizinhanças $U\subset\mathbb{C}^n$ de $p$, $V\subset\mathbb{C}^m$ de $q$ e uma aplicação Lipschitz $F\colon X\cap U\rightarrow Y\cap V$ com inversa $G\colon Y\cap V\rightarrow X\cap U$ também Lipschitz. A definição acima define uma classe de equivalência no conjunto dos pares $(X,p)$. Uma classe de equivalência da relação acima é o que chamamos de uma estrutura Lipschitz local.

Ressaltamos a importância de citar algumas das principais referências de resultados pioneiros na proposta de investigação da multiplicidade como invariante de estruturas locais mais rígidas do que topológicas e menos do que analíticas, a saber: no artigo [6], Gau e Lipman provaram a invariância da multiplicidade para estruturas locais diferenciáveis (Ephraim abordou o caso de estruturas locais continuamente diferenciáveis [5]) e, no artigo [4], assumindo restrições severas sobre as constantes de Lipschitz que conjungam dois paraes $(X,p)$ e $(Y,q)$, Comte mostrou que $\mu(X,p)=\mu(Y,q)$.  

Em meados da década de 80, Tadeusz Mostowski provou que  existe uma quantidade enumerável de estruturas Lipschitz locais analíticos; esse resultado estimulou sobremaneira a pesquisa sobre a Geometria Lipschitz Local de conjuntos analíticos. Estabelecemos a classe de $(\mathbb{C}^n,0)$ como a estrutural Lipschitz local mais simples e a denominamos por estrutura Lipschitz local trivial.

Em trabalhos recentes escritos em parceria com Lev Birbrair (UFC), Javier de Bobadilla (BCAM), Edson Sampaio (UFC), Lê Dung Trang (Aix-Marseille) e Misha Verbitsky (IMPA) provamos os seguintes resultados.
  1. Estrutura Lipschitz local trivial é equivalente a estrutura analítica local trivial [1] (Sampaio provou a versão mais completa deste resultado em [7]);
  2. Em dimensão 2, a multiplicidade é um invariante da estrutura Lipschitz local [2];
  3. Em dimensão maior do que 2, a multiplicidade não é invariante da estrutura Lipschitz local [3].
Em outras palavras, o primeiro resultado listado acima diz que multiplicidade igual a 1 é um invariante da estrutura Lipschitz Local. Quanto ao terceiro resultado acima, de fato, provamos que para qualquer dimensão $d$ maior do que 2 existem pares $(X,p)$ e $(Y,q)$ de dimensão $d$ com mesma estrutura Lipschitz local, porém com multiplicidades distintas. Portanto, os resultados 1 e 2 acima, juntamente com os resultados de Pham e Teissier que, no fim da década de 60,  demonstraram que a multiciplicidade é invariante da estrutura Lipschitz local em dimensão 1, podem ser resumidos da seguinte forma: a multiplicidade é invariante da estrutura Lipschitz local somente em dimensão 1 e 2.

Referências bibliográficas

[1] BIRBRAIR, L.; FERNANDES, A.; LÊ D. T. and SAMPAIO, J. E. Lipschitz regular complex algebraic sets are smooth. Proc. Amer. Math. Soc 144 (2016), pp 983--987.

[2] J. DE BOBADILLA; FERNANDES, A. and SAMPAIO, J. E. Multiplicity and degree as bi-Lipschitz invariants for complex sets. Journal of Topology 11 (2018), pp 957--965. 

[3] BIRBRAIR, L; FERNANDES, A. and SAMPAIO, J. E., Verbtisky, M. Multiplicity of singularities is not a bi-Lipschitz invariant. Math. Annalen 377 (2020), pp 115--121.

[4] COMTE, G. Multiplicity of complex analytic sets and bi-Lipschitz maps.
Real analytic and algebraic singularities (Nagoya/Sapporo/Hachioji, 1996 Pitman Res. Notes Math. Ser., vol. 381, pp.182--188, 1998.

[5] EPHRAIM, R. $C^1$ preservation of multiplicity.  Duke Math. 43 (1976) pp. 797--803.

[6] GAU, Y.-N. and LIPMAN, J. Differential invariance of multiplicity on analytic varieties.
Inventiones Mathematicae 73 (1983), pp. 165--188.

[7] SAMPAIO, J. E. Bi-Lipschitz homeomorphic subanalytic sets have bi-lipschitz homeomorphic tangent cones. Selecta Math. (N.S.) 22(2), pp 553--559, (2016).

[8] ZARISKI, O. Some open questions in the theory of singularities. Bull. of the Amer. Math. Soc. 77 (1971), pp 481--491.


segunda-feira, 18 de maio de 2015

10th Miniworkshop on Singularities, Geometry and Differential Equations


Estou muito satisfeito com o resultado da organização do evento 10th Miniworkshop on Singularities, Geometry and Differential Equations. Esta edição do Miniworkshop foi uma iniciativa do Grupo de Singualaridades da Pós-Graduação em Matemática da UFC e do Grupo de Singularidades do ICMC-USP e foi realizada no período de 10 a 13 de maio de 2015 no Hotel Maredomus em Fortaleza-CE. Muita gente apareceu por lá e prestigiou nosso trabalho! Vejam as fotos postadas na minha coleção do google+ Miniworkshop on Singularities 2015. Para mais informações sobre evento visite o nosso website



domingo, 25 de janeiro de 2015

Medalha de Ouro na OBI 2014

     Depois de um longo tempo sem postar, retorno para parabenizar meu filho, Alexandre Lima Fernandes, por sua grande conquista na última edição da Olimpíada Brasileira de Informática OBI; Medalha de Ouro.


     Abaixo, segue uma pequena amostra da prova da segunda (e última) etapa da OBI 2014 Modalidade Iniciação:   

Armário de Troféus

O Centro Acadêmico mandou construir dois armários, um vermelho e um branco (as cores do colégio) para guardar os troféus das equipes de esporte. Há quatro prateleiras em cada armário, numeradas de 1 a 4, de baixo para cima. Há sete tipos de troféus que devem ser colocados nas prateleiras: handebol, vôlei, futebol, futsal, judô, natação e tênis. Cada tipo de troféu deve ser colocado em exatamente uma prateleira, exceto futebol, que ocupa duas prateleiras, uma acima da outra, no mesmo armário. As seguintes condições devem ser obedecidas:
  • Os troféus de volei e futsal estão nas prateleiras mais altas do armário.
  • Os troféus de tênis estão numa prateleira 2.
  • Os troféus de natação e judô estão em armários distintos.

Questão 28. Qual das seguintes poderia ser uma lista completa e correta dos troféus, nas prateleiras de 1 a 4, respectivamente, nos dois armários?

(A) vermelho: futebol, futebol, handebol, futsal branco: natação, tênis, judô, volei

(B) vermelho: futebol, judô, futebol, futsal branco: handebol, tênis, natação, volei

(C) vermelho: judô, handebol, tênis, volei branco: natação, futebol,futebol,futsal

(D) vermelho: natação, futebol, futebol, volei branco: handebol, tênis, judô,futsal

(E) vermelho: judô, futebol, futebol, handebol branco: judô, tênis, volei, futsal

Questão 29. Se tênis está no armário vermelho, qual das seguintes afirmativas é necessariamente verdadeira?

(A) Natação está na prateleira 1 do armário vermelho.

(B) Futebol está na prateleira 2 do armário branco.

(C) Volei está na prateleira 4 do armário vermelho.

(D) Futebol está na prateleira 3 do armário branco.

(E) Handebol está na prateleira 3 do armário vermelho.

Questão 30. Qual das seguintes afirmativas é necessariamente falsa?

(A) Tênis e natação estão no mesmo armário.

(B) Judô e handebol estão no mesmo armário.

(C) Futsal e futebol estão no mesmo armário.

(D) Futebol e handebol estão no mesmo armário.

(E) Tênis e judô estão no mesmo armário.

Questão 31. Se futebol está na prateleira 1 do armário vermelho, quantos tipos diferentes de troféus poderiam estar na prateleira 1 do armário branco?

(A) 1

(B) 2

(C) 3

(D) 4

(E) 5

Questão 32. Se judô está em uma prateleira de número mais baixo do que natação, qual das seguintes
afirmativas é necessariamente verdadeira?

(A) Judô está numa prateleira 1.

(B) Natação está numa prateleira 2.

(C) Futebol está numa prateleira 1.

(D) Futebol e handebol estão na mesma prateleira.

(E) Judô e handebol estão na mesma prateleira.

Questão 33. Se tênis está no armário vermelho, em uma prateleira abaixo de natação, quantas diferentes maneiras de guardar os troféus no armário branco existem?

(A) 2

(B) 3

(C) 4

(D) 5

(E) 6
.

    Como vocês podem observar nos problemas acima, a prova da Modalidade Iniciação consiste em problemas de Lógica; uma das matérias favoritas do meu filho.

    Com a palavra, Alexandre; o filho!

Por Alexandre Lima Fernandes

    Lógica pode parecer um conceito trivial - porque de fato é -, mas no Brasil é algo de muita demanda. Veja como isso é simples de perceber:


     Uma pessoa sem lógica não consegue achar relação entre determinados elementos em uma situação quando ela existe. Ou seja, tem interpretação limitada. Posso dar um exemplo simples de frequente diálogo brasileiro:

"Falante: - Observei que por aqui sempre chove em domingos.
Ouvinte: -Mas ontem choveu e ontem foi terça-feira.
Falante: - É verdade! Perdoe o equívoco."

    Quem se prepara para a Olimpíada Brasileira de Informática na modalidade Iniciação cansa de ouvir expressões como "Se e somente se", "ida e volta" e afins. Basta conhecer esses conceitos para compreender que, se em todo domingo ocorre uma chuva, não necessariamente só chove em domingos. O problema é que muitos brasileiros - principalmente jovens - são desprovidos, seja por erro natural ou biológico, de análises triviais como essa!
     
     Mas qual é o peso disso? O peso disso é não pensar com coerência. O peso disso é incapacidade de crítica. E quem não consegue tecer uma crítica ou um próprio pensamento, dependendo de obedecer cegamente ao que ouve sem contestar, denomina-se o quê? Denomina-se idiota útil.
   
     A consequência disso são manifestações sem ideias fixas contra um suposto "fascismo" cujo significado é desconhecido pela maioria dos manifestantes. A consequência disso são atos de pura guerrilha contra um "sistema" cujos integrantes os próprios guerrilheiros são incapazes de descrever.

    Em suma: lógica é um conceito trivial, mas necessário para a inteligência humana e a capacidade de debate.

domingo, 22 de setembro de 2013

Parabéns pelo blog, Rui!

Conversando sobre matemática se estuda melhor é o Blog do meu amigo Professor Rui Brasileiro, o qual seguiremos a partir de hoje. Na mais recente postagem do Rui, ele resolve o problema do Triângulo Russo de forma extremamente elegante; vale a pena conferir!  


Sinceros votos de sucesso e parceria! 

Happy Hour Matematico.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Irracionalidade de Raiz de 2

Esta semana, recebi um email de meu amigo Professor Diego Marques (UNB) comunicando que iniciara um projeto de postagem dos vídeos de suas palestras em um canal no youtube. Excelente iniciativa!!! Fui lá conferir. O primeiro vídeo é uma bela palestra em que o  Diego apresenta algumas provas da irracionalidade de $\sqrt{2}$ com o objetivo apresentar técnicas de  prova que são utilizadas em outros problemas correlatos. Esse vídeo corresponde à primeira aula de um minicurso sobre Teoria dos Números ministrado no IMPA.

Abaixo, compartilho o link  do referido vídeo

https://www.youtube.com/watch?v=uhZf8Oa2F7Q  

Antes de finalizar esta postagem, gostaria de dar a minha contribuição apresentando uma prova da irracionalidade de $\sqrt{2}$ diferente das apresentadas pelo Diego.

Observe que se a soma de dois quadrados de inteiros, digamos $m^2+n^2$, é divisível por 3 então cada inteiro, $m$ e $n$, é divisível por 3. Logo, se supusermos que $\sqrt{2}$ seja um número racional, podemos escrever $\sqrt{2}=\frac{m}{n}$, em que $m$ e $n$ são números inteiros primos entre si. Então, $3n^2=m^2+n^2$, daí $m$ e $n$ necessariamente são múltiplos de 3. Absurdo!

Ah! Quase me esqueci que havia prometido que apresentaria, nesta postagem, uma solução do problema abaixo . 

Problema. Seja $f:\mathbb{R}\rightarrow\mathbb{R}$ uma função contínua tal que $f(f(f(x)))=x^2+1$ para todo $x$. Mostre que $f$ é uma função par.

Solução. Desde que $x^2+1>x$ para todo $x$, temos que $f$ não possui ponto fixo. Em particular, $f(0)\neq 0$. Sejam
$P=\{x : f(x)=f(-x)\}$ e $I=\{x : f(x)=-f(-x)\}$. Como $f$ é contínua, Temos que os subconjuntos acima são subconjuntos fechados de $\mathbb{R}$. Mostraremos que:

1. $\mathbb{R}=P\cup I$;

2. $P\cap I=\emptyset$.

Uma vez provados 1 e 2,desde que $\mathbb{R}$ é conexo e $0\in P$, segue  que $P=\mathbb{R}$, isto é, $f$ é uma função par.

Prova de 1.  

Dado $x$, temos que $f(x)^2+1=f(f(f(f(x))))=f(x^2+1)$. Portanto, $f(-x)^2+1=f(x)^2+1$, isto é, $x\in P\cup I$.

Prova de 2. 

Por contradição, suponha que $x\in P\cap I$. Logo $f(x)=0$ e $f(-x)=0$. Como $f(0)\neq 0$, garantimos a existência de um y positivo tal que $f(y)=0$.

Temos $f(1)=f(0^2+1)=f(f(f(f(0))))=f(0)^2+1>1$. Assim, a função $g(z)=f(z)-z$ é positiva no ponto 1 e negativa no ponto y. Pelo Teorema do Valor Intermediário, a função $g$ tem um zero, isto é, a função $f$ tem um ponto fixo. O que é um absurdo.

C.Q.D.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Equações funcionais e Eu



Semana passada, um aluno muito crítico observou algo muito interessante que me deixou meio reflexivo; minhas soluções nas aulas de exercícios de E.D.O. são ad hoc. Em principio, não recebi a critica suavemente, todavia a crítica fez-me lembrar e motivou-me a pesquisar sobre soluções que eu considero ad hoc. Não pude escapar de um reencontro com uma classe de problemas que, realmente, eu nunca consegui achar um padrão (ou sistemática se preferir) para resolvê-los. Nessa classe, cada problema é uma história diferente. Estou falando dos problemas sobre equações funcionais. 

Em minhas pesquisas pela web, encontrei um artigo do Professor Eduardo Tengan, sobre Eq. Funcionais, publicado na Revista Eureka (aqui). Nesse artigo, o Professor Tengan esboça uma tentativa de domar tais problemas e obtém como produto um artigo que vale a pena ser lido; uma iniciativa excelente.

Durante minhas reflexões resolvi matar a saudade de resolver um desses problemas de equações funcionais que você não imagina por onde começar a resolvê-los.  Abaixo o problema.

Problema
Seja $f\colon\mathbb{R}\rightarrow\mathbb{R}$ uma função contínua  tal que $f(f(f(x)))=1+x^2$ para todo $x\in\mathbb{R}$. Mostre que $f(x)$ é  uma função par.

Na próxima postagem a solução.

Agradecimentos. Ao meu aluno!

quarta-feira, 29 de maio de 2013

A reta possui raiz: um ponto de vista algébrico

Por Rafael A. da Ponte

A convite do prof. Alexandre, estou aqui para continuar a série de postagens sobre raízes. Agradeço o chamado, professor! 

Nesse post "contrariaremos" a resposta da pergunta que originou toda a discussão:

"$\mathbb{R}$ possui raiz?" 

Na verdade, consideraremos agora o grupo aditivo dos reais, e não mais a reta como espaço topológico (naturalmente, o conceito de raiz é o algébrico, já apresentado pelo Bill em duas oportunidades). Vale lembrar que essa pergunta é a primeira da postagem anterior (aqui).

Então, vamos à solução:

Suponhamos primeiro que ($\mathbb{R}$,+) possui uma raiz ($X$, digamos). Consideraremo-la um subgrupo aditivo de $\mathbb{R}$, da maneira canônica. É simples de ver que $X$, com as operações usuais, é um subespaço de $\mathbb{R}$ sobre $\mathbb{Q}$ (dado qualquer natural $q$ e $x$ em $X$, existe $(a,b)$ em $X\times X$ tal que $q.(a,b) = (x,0)$, logo $b=0$, e assim $a \in X$ é tal que $a=x/q$, daí segue da estrutura de grupo que $X$ é fechado por produto por escalar). 
Disso segue que $X$ é raiz da reta na estrutura de espaço vetorial sobre $\mathbb{Q}$ (o que nos dá mais um conceito de raiz, dessa vez no contexto de espaços vetoriais).

Feito isso, note que se $B$ é base de Hamel de $X$, $B\times \{ 0 \} \cup \{ 0 \}\times B$ é base de $X\times X$ e suas imagens serão uma base de Hamel de $\mathbb{R}$. Daí, o problema de achar uma raiz de ($\mathbb{R}$,+) resume-se a, dada uma base de Hamel $H$ de $\mathbb{R}$, encontrarmos um subconjunto $B$ contido em $H$ em bijeção com $H\backslash B$.
Para isso, defina o conjunto dos pares $(C,f)$, $C$ contido em $H$ e $f: C\rightarrow H\C$ injetivas ordenado com $(C,f)\leq(D,g) \Leftrightarrow C \subset D$ e $g$ estende $f$. Esse conjunto satisfaz as condições do Lema de Zorn, logo tem um elemento maximal $(B,h)$. Agora, verifique que $(H\backslash B) \backslash h(B)$ tem, no máximo, um elemento, e em ambos os casos de cardinalidades de $(H\backslash B) \backslash h(B)$, $B$ é um subconjunto como pedimos no parágrafo acima.

Fim da solução.


É isso aí. Até a próxima vez!